Interpretação de texto: Morte e vida severina - Auto de natal pernambucano


Morte e vida severina
Auto de natal pernambucano

João Cabral de Melo Neto 

O RETIRANTE EXPLICA AO LEITOR
QUEM É E A QUE VAI

— O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.

Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.

Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.

Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
com nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.

Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos
iguais em tudo e na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).

Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.

Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.


MELO NETO, João Cabral de. Morte e vida severina e outros poemas para vozes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.


1. Ao iniciar a narrativa, o poeta dá voz a uma personagem. Que elementos do poema comprovam isso e que personagem é essa?

2. Por que a personagem sente dificuldade em apresentar-se? E o que ela faz para poder apresentar-se diante dessa dificuldade? 

3. Ao buscar uma forma de apresentar-se ao leitor, Severino constrói um panorama de sua vida e da situação em que se encontra. Indique o que esse panorama revela e dê um exemplo retirado do texto que evidencie isso.

4. A construção desse trecho do poema ocorre de forma crescente, isto é, as características de Severino vão se somando umas às outras para que o leitor forme uma imagem dele. Esse recurso de linguagem chama-se gradação. Em sua opinião, por que o poeta utiliza a gradação?

5. No trecho:

"Mas, para que me conheçam
Melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo ser o Severino
que em vossa presença emigra."

Severino parece finalmente encontrar uma característica que o distingue dos demais Severinos.

a) Que característica é essa?
b) Em sua opinião, essa característica o distingue realmente dos demais Severinos? Explique.

Gabarito

1. A frase inicial "O retirante explica ao leitor quem é que vai" e o travessão que inicia a fala da personagem, que se chama Severino.

2. A personagem não encontra uma característica pessoal que possa distingui-la de outras pessoas e por isso explica sua origem ao apresentar-se ao leitor.

3. Esse panorama revela a condição precária de sua vida. Isso pode ser percebido, por exemplo, nos versos "a de tentar despertar / terra sempre mais extinta, / a de querer arrancar/algum roçado da cinza".

4. A gradação permite que o poeta apresente ao leitor uma realidade social trágica, ao descrever a pobreza da personagem e ao mostrar que há muitos outros seres humanos que compartilham a mesma situação.

5.
a) O fato de que ele é um emigrante.
b) Resposta pessoal. Observe: o fato de Severino ser um retirante também não o distingue dos demais Severinos.