A Segunda Guerra Mundial: interpretação de texto para ensino médio - Os diários como documentos históricos


Em 1939, a Alemanha invadiu a Polônia, dando início à Segunda Guerra Mundial. Após a derrota da Polônia, em 1940, os nazistas isolaram uma área da capital, Varsóvia, e para lá enviaram todos os judeus residentes no país. Entre eles estava Janina Bauman, uma adolescente de 14 anos, cidadã polonesa de família judia próspera. 
Durante sua permanência no gueto de Varsóvia, a adolescente escreveu diários e contos que somente sessenta anos depois do conflito ela resolveu publicar. No livro Inverno na manhã - Uma jovem no gueto de Varsóvia, Janina relata suas experiências com a guerra, a luta pela sobrevivência, dentro e fora do gueto, e apresenta ao leitor sua família, os amigos surgidos no infortúnio, os horrores da guerra, as ações desumanas que presenciou, a fuga do gueto de Varsóvia, a vida em esconderijos. 
O texto a seguir é um trecho do diário de Janina. Trata-se de uma página escrita depois que a autora, sua mãe e sua irmã juntaram-se a outros refugiados que deixaram Varsóvia, deportados para a zona rural. 


20 de outubro de 1944 

Ainda estamos vivas. E juntas. Por aqui tudo é tão tranquilo e tão seguro que é difícil acreditar que todo o nosso passado recente seja real. Será que o pesadelo acabou? Será que vamos viver assim até o fim da guerra e finalmente sobreviver? Durante o dia, quando o sol brilha através do minúsculo quadrado de nossa janela, eu penso que sim, é isso, nós escapamos. Mas quando acordo no meio da noite, imagens horripilantes retornam como uma torrente, o medo me arrepia a alma e não consigo voltar a dormir. Então começo a pensar em nossa vida atual, em como nossa situação é de fato incerta e como estamos longe de nos sentirmos seguras. Porque eles ainda estão aqui, embora não se fale muito sobre isso. Estão aqui, mandando nesta tranquila zona rural, nestas pessoas que nos abrigaram sob o seu teto. E só estamos aqui porque eles ordenaram que os granjeiros locais acolhessem os deportados, da mesma forma que os obrigaram a entregar parte de seu gado para o Terceiro Reich. Os nazistas podem estar perdendo batalhas a oeste, podem estar feridos de morte ao leste, mas aqui exatamente eles estão em pleno comando. E assim, a qualquer dia ou noite este período de tranquilidade pode facilmente chegar a um fim abrupto. Vamos supor que alguém na aldeia deteste judeus, ou tenha uma desavença com a família que nos abriga, ou deseje receber uma recompensa. Aposto que essa senhora e seus filhos não imaginam quem somos. Talvez nem mesmo consigam identificar um judeu pela aparência. Espero que não sejam fuzilados se os nazistas chegarem até nós. Afinal, só estão fazendo o que foram obrigados a fazer - acolher refugiados de Varsóvia. E é isso que somos, refugiados de Varsóvia. 
Sei que manter meu diário significa assumir um grande e desnecessário risco - ele contém a afirmação, preto no branco, de tudo aquilo que estamos tentando esconder. Mas não quero que minhas experiências caiam no esquecimento, de modo que continuarei escrevendo, se não para a posteridade; ao menos para mim mesma. Agora vou enterrá-lo no fundo do catre e dormir por cima dele. 

(Janina Bauman. Inverno na manhã - Uma jovem no Gueto de Varsóvia. Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. p. 205-6)


Glossário
abrupto: súbito, repentino.
catre: cama de viagem, dobrável, de lona; leito tosco e pobre.
deportado: desterrado, exilado, banido.
posteridade: o tempo futuro; as gerações futuras.
refugiado: aquele que se refugiou, asilou-se, expatriou-se.


A maior prova de insensatez 

A Segunda Guerra Mundial foi a mais abrangente e mais sangrenta da história. Durante os seis anos de conflito, entre 1939 e 1945, estima-se que 56,4 milhões de pessoas tenham morrido, entre soldados e civis. Só a União Soviética perdeu 7 milhões de civis e 6,1 milhões de soldados. Outro país bastante castigado foi a Polônia. que teve mais de 6 milhões de mortos, 17% de sua população. 
A Segunda Guerra foi travada entre dois grupos: de um lado, o dos países Aliados, formado pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, União Soviética e China; do outro lado, as potências do Eixo, com Alemanha, Itália e Japão. Uma das motivações da guerra foi o desejo do ditador nazista Adolf Hitler de criar uma "nova ordem" na Europa, baseada na superioridade alemã, na eliminação das minorias étnicas e religiosas (como os judeus), na supressão das liberdades e dos direitos individuais e na perseguição de ideologias liberais, socialistas e comunistas. As nações democráticas (como França, Grã-Bretanha e os Estados Unidos) opuseram-se aos planos expansionistas dos países do Eixo. 

(Alexandre Petillo. O livro dos recordes da Super, dez. 2004. Abril Comunicações S/A.) 


1. Abrigada, juntamente com a mãe e a irmã, na casa de uma senhora, Janina vive um momento de tranquilidade e medo. 
a) No início do relato, por que ela está alegre? 
b) A quem ela se refere quando escreve eles em seu diário? 
c) Por que ela ainda tem medo? 
2. Num diário, costumamos relatar fatos de nosso cotidiano. 
a) O que um (a) adolescente geralmente registra em seu diário? 
b) Por que o diário de Janina é diferente? 
c) Por que o diário de Janina constitui um risco? 
d) Apesar disso, por que ela o mantém? 
 
3. O diário é um gênero textual que geralmente tem como leitor o próprio autor. Na sua opinião, com que finalidade esse diário se tomou público? 
4. Um diário pode ser escrito em longos ou curtos períodos e suas páginas costumam ser datadas. A página do diário em estudo apresenta data? 

5. O diário pode ou não ser dirigido a alguém e pode ser real ou fictício. A palavra ou expressão que nomeia essa pessoa é chamada de vocativo. Além do vocativo, um diário pode conter ou não assinatura.  Na página do diário em estudo, a autora se dirige a alguém? 


Os diários como documentos históricos 

Um diário pode se tornar um documento de grande valor histórico por registrar o dia a dia de uma pessoa que viveu uma época de guerra, de fome, de conflitos sociais, etc. É o caso, por exemplo, do diário de Janina Bauman e também do Diário de Anne Frank, ambos amargos testemunhos da Segunda Guerra Mundial. Anne Frank também era judia e, nessa época, viveu escondida com sua família, durante dois anos, no sótão de um prédio, em Amsterdã, Holanda. Descobertos pela Gestapo, todos foram mortos, com exceção do pai, que, após a guerra, publicou o diário da filha. 
Em 1993-4, foi publicado O diário de Zlata - A vida de uma menina na guerra. Sua autora, outra menina, Zlata Filipovic, também narra os horrores da guerra, dessa vez na Bósnia. 


Gabarito

1.
a) Porque ela, a mãe e a irmã estão vivas e juntas.
b) Aos alemães nazistas.
c) Porque a guerra ainda não terminou e, como ela, a irmã e a mãe são judias, podem ser denunciadas pelas pessoas do lugar e, nesse caso, serem presas, deportadas ou mortas.

2.
a) Além dos fatos do cotidiano, registra suas impressões sobre o mundo que o (a) cerca, suas ideias, opiniões, emoções, desejos, desabafos e também seus segredos.
b) Porque seu relato vai além dos fatos cotidianos; são testemunhos de sua vivência durante a Segunda Guerra Mundial.
c) Porque nele ela não esconde o fato de ser judia e isso pode colocar em risco a sua vida, a de seus familiares e a das pessoas que as acolheram.
d) Para que ele seja um testemunho vivo e verdadeiro de suas experiências na guerra, se não para posteridade, ao menos para ela, que não deseja esquecê-las.

3. Para testemunhar os horrores da guerra.

4. Sim, "20 de outubro de 1944".

5. Não.