Grande sertão: veredas (interpretação)


Grande sertão: veredas é considerado um dos mais importantes romances brasileiros. Essa afirmação apoia-se sobretudo na inventividade com que Guimarães Rosa tratou a linguagem do texto, ao destacar o vocabulário e o ritmo do falar sertanejo, construindo por meio desse falar uma obra inovadora, de grande valor estético. 
Faça uma leitura silenciosa de um trecho do romance, um momento em que Riobaldo, a personagem principal, fala de sua concepção de religiosidade. Procure imaginar que o texto está sendo contado mentalmente por uma pessoa, numa situação de conversa informal. Identifique o sentido das palavras desconhecidas e certifique-se de que compreendeu o conteúdo de cada frase. 

Grande sertão: veredas 
João Guimarães Rosa 

Hem? Hem? O que mais penso, testo e explico: todo-o-mundo é louco. O senhor, eu, nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara loucura. No geral. Isso é que é a salvação-da-alma... Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim, é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim, onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar — o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. E eu! Bofe! Detesto! O que sou? — o que faço, que quero, muito curial. E em cara de todos faço, executado. Eu não tresmalho! 
Olhe: tem uma preta, Maria Leôncia, longe daqui não mora, as rezas dela afamam muita virtude de poder. Pois a ela pago, todo mês — encomenda de rezar por mim um terço, todo santo dia, e, nos domingos, um rosário. Vale, se vale. Minha mulher não vê mal nisso. E estou, já mandei recado para uma outra, do Vau-Vau, uma Izina Calanga, para vir aqui, ouvi de que reza também grandes meremerências, vou efetuar com ela trato igual. Quero punhado dessas, me defendendo em Deus, reunidas de mim em volta... Chagas de Cristo! 
Viver é muito perigoso... Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para consertar o consertado. 
Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo. 

ROSA. João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. 


Cardéque: forma abrasileirada do nome Kardec (de Allan Kardec, nome com que ficou conhecido o professor francês responsável pela divulgação da doutrina espírita). 
curial: relativo à cúria (local em que se fazem os serviços religiosos). 
embrenhar: internar-se, esconder-se. 
meremerência: palavra formada provavelmente a partir de mérito. 
tresmalhar: sair do caminho desejado; perder-se, extraviar-se. 


1. Por que, segundo o narrador, todo o mundo carece de religião? Nesse contexto, qual é o papel da religião na vida das pessoas? 

2. A forma como o texto foi escrito é revolucionária. Note que o autor se vale de uma linguagem muito próxima da fala. Com uma sintaxe diferente da que encontramos nos manuais de gramática e um vocabulário cheio de neologismos — isto é, de palavras e expressões criadas pelo autor —, sua linguagem dá um ritmo completamente diferente à narrativa, sem, evidentemente, subverter a lógica do texto. Releia os trechos a seguir, volte ao texto para identificar o contexto do qual fazem parte e proponha uma interpretação para eles. 

a) "Bebo água de todo rio... Uma só, para mim, é pouca, talvez não me chegue." 
b) "Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório." 

3. Releia.

"Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. E eu! Bofe! Detesto! O que sou? — o que faço, que quero, muito curial. E em cara de todos faço, executado. Eu não tresmalho!" 

a) O que as pessoas não aprovam? 
b) Como ele se comporta diante do que as pessoas pensam sobre seu modo de se envolver com a religião? 

4. No último parágrafo do fragmento, fica clara a visão que o narrador tem da vida, o que justifica, de certa forma, sua grande necessidade de religião, de rezas, de orações. 

a) Que visão é essa?  
b) Segundo o narrador, por que a religião, nesse contexto, tem papel fundamental? 


Gabarito

1. Segundo o narrador, todo o mundo precisa de religião para "desendoidecer". Nesse contexto, o papel da religião é o de orientar as pessoas para um equilíbrio maior, de modo que não sofram tanto e evitem fazer os demais sofrer. Professor, aceite outras possibilidades de resposta para a segunda parte da questão. 

2. 
a) Ele segue diversas religiões. Para ele, uma só não é suficiente para dar conta de sua necessidade de transcendência. 

b) Sombrinha, nesse contexto, significa qualquer rito religioso. Qualquer rito ou oração o acalma, mas não por muito tempo, dai sua necessidade de se alimentar de várias religiões. Isso revela, na verdade, uma espécie de angústia constante do narrador-personagem, uma angústia que ele não consegue aplacar. 
Professor, comente com os alunos que no texto de Guimarães Rosa há uma temática universal, como é o caso da religião, porém observada pelo crivo do olhar do sertanejo. Assim, a linguagem deverá trazer certos elementos novos no léxico, como é o caso dos neologismos e de certos pensamentos da personagem, que escapam, aparentemente, à previsibilidade da leitura. 

3.
a) O fato de ele se servir de diversas religiões e não ser fiel a nenhuma. "Acham que lei de Deus é privilégios, invariável."

b) Ele não se esconde. Ele detesta a ideia de que é necessário seguir apenas uma religião para ser atendido por Deus. Acredita estar certo em buscar "muito curial", por isso não se preocupa em disfarçar suas práticas: "E em cara de todos faço, executado. Eu não tresmalho!".

4.
a) Para ele, viver é muito perigoso.
b) Sugestão: Se viver é muito perigoso, é possível que o tempo todo se esteja sujeito a perigos de diversas naturezas. A religião é uma forma de afastá-los, de proteger as pessoas desses perigos. Professor, aceite outras respostas.