Interpretação do poema Dor negra (Cruz e Sousa) - exercício de literatura


Cruz e Sousa exercitou um gênero pouco difundido no Brasil, porém bastante contemplado pelos simbolistas franceses: o poema em prosa. Particularmente nesse tipo de texto, dedicou-se a retratar e denunciar a dura condição dos negros no Brasil, conferindo-lhes dignidade e pondo sua arte, assim, a serviço da causa abolicionista. 

Poemas em prosa 
Com temas, imagens, estilo e inspiração análogos aos da poesia, esses textos são estruturados em prosa, isto é, não apresentam divisão em versos ou estrofes. 

Dor negra 

E como os Areais eternos sentissem fome e sentissem sede de flagelar, devorando com as suas mil bocas tórridas todas as rosas da Maldição e do Esquecimento infinito, lembraram-se, então, simbolicamente da África! 

Sanguinolento e negro, de lavas e de trevas, de torturas e de lágrimas, como o estandarte mítico do Inferno, de signo de brasão de fogo e de signo de abutre de ferro, que existir é esse, que as pedras rejeitam, e pelo qual até mesmo as próprias estrelas choram em vão milenariamente?! 
Que as estrelas e as pedras, horrivelmente mudas, impassíveis, já sem dúvida que por milênios se sensibilizaram diante da tua Dor inconcebível, Dor que de tanto ser Dor perdeu já a visão, o entendimento de o ser, tomou decerto outra ignota sensação da Dor, como um cego ingênito que de tanto e tanto abismo ter de cego sente e vê na Dor uma outra compreensão da Dor e olha e palpa, tateia um outro mundo de outra mais original, mais nova Dor. 
O que canta Réquiem eterno e soluça e ulula, grita e ri risadas bufas e mortais no teu sangue, cálix sinistro dos calvários do teu corpo, é a Miséria humana, acorrentando-te a grilhões e metendo-te ferros em brasa pelo ventre, esmagando-te com o duro coturno egoístico das Civilizações, em nome, no nome falso e mascarado de uma ridícula e rota liberdade, e metendo-te ferros em brasa pela boca e metendo-te ferros em brasa pelos olhos e dançando e saltando macabramente sobre o lodo argiloso dos cemitérios do teu Sonho. 
Três vezes sepultada, enterrada três vezes: na espécie, na barbaria e no deserto, devorada pelo incêndio solar como por ardente lepra sidérea, és a alma negra dos supremos gemidos, o nirvana negro, o rio grosso e torvo de todos os desesperados suspiros, o fantasma gigantesco e noturno da Desolação, a cordilheira monstruosa dos ais, múmia das múmias mortas, cristalização d'esfinges, agrilhetada na Raça e no Mundo para sofrer sem piedade a agonia de uma formidável, que só ela bastaria para fazer enegrecer o sol, fundido convulsamente e espasmodicamente à lua na cópula tremenda dos eclipses da Morte, à hora em que os estranhos corcéis colossais da Destruição, da Devastação, pelo Infinito galopam, galopam, colossais, colossais, colossais... 

CRUZ E SOUSA. Dor negra. In: MURICY, Andrade (Org.). Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 563-564. 


Glossário: 

ingênito: inato, de nascença; 
coturno: calçado de sola grossa e alta; 
sidéreo: pertencente aos astros, celestes; 
nirvana: no Budismo, estado de paz, plenitude, ausência total de sofrimento; 
agrilhetado: preso com grilhões, acorrentado; 
cópula: união, ligação, ato sexual; 
corcel: cavalo veloz. 

Classifique as seguintes afirmações sobre o texto lido em verdadeiras (V) ou falsas (F). 

a) A epígrafe do texto apresenta uma paisagem desértica e aterradora, na qual os elementos naturais flagelam e devoram, fazendo lembrar a África, terra de origem de muitos dos antepassados do próprio poeta. 

b) No texto, imagens negativas vão se somando, para descrever um sofrimento infinito e incomparável, que leva o sujeito a questionar, em vão, uma Natureza que se mantém muda, e impassível: "que existir é esse". 

c) Estilisticamente, o poeta se vale da repetição, da comparação e da gradação crescente para destacar a intensidade de uma dor antiga, mas que se renova e se intensifica no presente, reafirmada como condição de um grupo de excluídos: é a Dor Negra. 

d) Tal como nos demais textos do autor, prevalecem em "Dor negra" as metáforas que remetem ao universo simbólico da religião (Inferno, cálix, Réquiem, calvários...), sempre com o intuito de conferir à realidade mais concreta alguma dimensão transcendental, aproximando-se o texto da reflexão metafísica. 

e) No texto, a Morte individual e inevitável remete ao fim do Universo, como se percebe pelo seu desfecho, que apresenta uma sequência de signos apocalípticos. 

f) Seguindo exclusivamente o ideário dos colegas franceses, é possível notar que Cruz e Sousa não soube fazer baixar ao chão o tom dos nefelibatas (que ou quem vive nas nuvens), afastando-se da realidade mais concreta, nunca focalizando aqueles para quem a arte poderia servir como legítimo instrumento de reivindicação e mudança.

Gabarito
V - V - V - V - V - F