Pronomes e colocação pronominal: regras e exemplos (tirinhas)

Casos em que se usa ênclise - exemplos com tirinhas
Casos em que se usa próclise - exemplos com tirinhas

Alguns usos dos pronomes pessoais no português brasileiro apresentam divergências em relação às regras estabelecidas na gramática normativa. Isso pode ser observado especialmente em duas questões: no uso do pronome reto no lugar do oblíquo e na colocação pronominal. 
Observe no segundo quadrinho da tira a seguir o uso do pronome pessoal. 


A construção "xingou ela" exemplifica a opção corrente: utilizar o pronome reto indiferentemente, esteja ele exercendo a função de sujeito ou de objeto direto. Construções como "encontrei ela" e "beijei ele" estão presentes em textos informais, orais e escritos, enquanto construções como "encontrei-a" e "beijei-o" se fazem presentes em textos com maior grau de formalidade, principalmente os escritos.

PRONOMES PESSOAIS RETOS E OBLÍQUOS

A gramática normativa preceitua que os pronomes pessoais do caso reto sejam empregados com a função sintática de sujeito e os pronomes pessoais do caso oblíquo ocupem a função de complemento de verbo ou de um nome.


No primeiro quadrinho, a frase "Comprou um vestido pra mim?" apresenta um pronome oblíquo na função de complemento (objeto indireto), "mim". No quadrinho seguinte, a frase "O que eu faço agora?" traz um pronome reto, "eu", na função de sujeito do verbo fazer.

Quando queremos nos certificar se devemos usar "eu" ou "mim" nas construções acompanhadas da reposição "para", basta verificar qual é a função exercida pelo pronome. Se estiver na função de sujeito, usamos "eu"; se estiver na função de complemento, usamos "mim". 

Função de sujeito
Este exercício é para eu fazer.  
Pediram para eu trazer um documento na escola.
Escolhi Santa Catarina para eu passar as férias.

Função de complemento
Entregaram flores para mim.
Deram um disco de presente para mim
Para mim, isto é importante.

Outra questão relativa aos pronomes que merece atenção diz respeito à colocação pronominal. Isso porque a gramática normativa estabelece regras específicas para definir a posição que os pronomes oblíquos átonos devem ocupar dentro da oração. Essas regras muitas vezes divergem da colocação pronominal que os usuários da língua portuguesa usam de modo espontâneo. Para refletir sobre isso, leia o poema a seguir. 

Pronominais 
Dê-me um cigarro 
Diz a gramática 
Do professor e do aluno 
E do mulato sabido 
Mas o bom negro e o bom branco 
da Nação Brasileira 
Dizem todos os dias 
Deixa disso camarada 
Me dá um cigarro 

ANDRADE, Oswald de. Seleção de textos. São Paulo: Nova Cultural, 1988. 

O poema de Oswald de Andrade mostra, de forma bem-humorada, que as lições gramaticais muitas vezes não correspondem ao uso que o falante faz da língua. 
No Brasil, poucos são aqueles que colocam o pronome oblíquo depois do verbo no início de orações, o que a gramática tradicional nomeia como ênclise
A preferência, no português brasileiro, é pela próclise, ou seja, a colocação do pronome oblíquo antes do verbo independentemente de ser, ou não, início de oração. Em outras palavras, a próclise é a posição natural do pronome oblíquo no português brasileiro, como vemos no exemplo a seguir. 

Tô solteiro no meio do povo 
Me empresta um beijo que amanhã eu te devolvo 

MORENO. Renato. Me empresta um beijo. In: GUILHERME & SANTIAGO. Até o fim. 
Rio de Janeiro: Som Livre. 2012.

Assim como na canção, costumamos dizer "me dê uma chance", "me diz uma coisa", "me traz uma água", em vez de utilizar formas prescritas pela gramática normativa: "dê-me uma chance", "diga-me uma coisa", "traga-me uma água". 

É fácil perceber que o uso da próclise soa mais espontâneo e natural, enquanto o uso da ênclise nos parece bastante formal. 

Embora ocorra descompasso entre a gramática normativa e a colocação do pronome oblíquo em usos informais, isso não acarreta qualquer problema à comunicação, seja oral, seja escrita. 

No entanto, em algumas situações comunicativas, privilegia-se o registro mais formal de linguagem, razão pela qual é importante conhecer as regras de colocação pronominal prescritas na gramática normativa e fazer uso delas nessas situações. 

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