Romantismo: O garimpeiro (Bernardo Guimarães) - Exercícios com respostas para vestibulares


O texto a seguir deve ser utilizado para responder às questões. 

O garimpeiro 
Lúcia tinha dezoito anos, seus cabelos eram da cor do jacarandá brunido, seus olhos também eram assim, castanhos bem escuros. Este tipo, que não é muito comum, dá uma graça e suavidade indefinível à fisionomia. 
Sua tez era o meio-termo entre o alvo e o moreno, que é, a meu ver, a mais amável de todas as cores. Suas feições, ainda que não eram de irrepreensível regularidade, eram indicadas por linhas suaves e harmoniosas. Era benfeita, e de alta e garbosa estatura. 
Retirada na solidão da fazenda paterna, desde que saíra da escola, Lúcia crescera como o arbusto do deserto, desenvolvendo em plena liberdade todas as suas graças naturais, e conservando ao lado dos encantos da puberdade toda a singeleza e inocência da infância. 
Lúcia não tinha uma dessas cinturas tão estreitas que se possam abranger entre os dedos das mãos; mas era fina e flexível. Suas mãos e pés não eram dessa pequenez e delicadeza hiperbólica, de que os romancistas fazem um dos principais méritos das suas heroínas; mas eram benfeitos e proporcionados. 
Lúcia não era uma dessas fadas de formas aéreas e vaporosas, uma sílfide ou uma bayadère *, dessas que fazem o encanto dos salões do luxo. Tomá-la-íeis antes por uma das companheiras de Diana, a caçadora, de formas esbeltas, mas vigorosas, de singelo mas gracioso gesto. 
Todavia era dotada de certa elegância natural, e de uma delicadeza de sentimentos que não se esperaria encontrar em uma roceira. 

GUIMARÃES, Bernardo. O garimpeiro. Rio de Janeiro: 
B. L. Garnier Livreiro/Editor do Instituto, 1872. p. 14-16 . 

* Bayadère (francês): dançarina das índias, dançarina de teatro. 

1. Na descrição da beleza das mulheres, os escritores nem sempre se restringem à realidade, mesclando aspectos reais e ideais. Uma das características do Romantismo era a tendência à idealização, embora nem todos os ficcionistas a adotassem como regra dominante. Com base nessas informações, releia o quarto parágrafo do fragmento de O garimpeiro e identifique na descrição da personagem Lúcia uma atitude crítica do narrador ao idealismo romântico. 

2. Pela concordância nominal, o adjetivo tem de ajustar sua flexão à do substantivo ou substantivos a que se refere. Considerando esse fato, releia o fragmento de O garimpeiro e explique a razão por que, no quarto parágrafo, os adjetivos "benfeitos" e "proporcionados" estão flexionados no plural e no masculino. 

GABARITO

1. Apesar de romântico, o texto sugere uma crítica (e até mesmo uma ironia) em relação à idealização feminina, tão comum nessa estética. O excerto a seguir comprova isso: "Suas mãos e pés não eram dessa pequenez e delicadeza hiperbólica, de que os romancistas fazem um dos principais méritos das suas heroínas; mas eram benfeitos e proporcionados". 

2. Os adjetivos "benfeitos" e "proporcionados" (predicativo do sujeito) referem-se ao sujeito elíptico "Suas mãos e pés" (mencionado na oração anterior). Pelo fato de serem de gêneros diferentes ("mãos": feminino; 'pés": masculino), os substantivos que compõem esse sujeito estão no plural, e os adjetivos que se referem a eles estão flexionados no masculino e no plural. 
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