Leitura e interpretação de texto - exercícios - vestibulares


Porque a realidade é inverossímil

Escusando-me  por repetir truísmo tão martelado, mas movido pelo conhecimento de que os truísmos são parte inseparável da boa retórica narrativa, até porque a maior parte das pessoas não sabe ler e é no fundo muito ignorante, rol no qual incluo arbitrariamente você, repito o que tantos já dizem e vivem repetindo, como quem usa chupetas: a realidade é, sim, muitíssimo mais inacreditável do que qualquer ficção, pois esta requer uma certa arrumação falaciosa, a que a maioria dá o nome de verossimilhança. Mas ocorre precisamente o oposto. Lê-se ficção para fortalecer a noção estúpida de que há sentido, lógica, causa e efeito lineares e outros adereços que integrariam a vida. Lê-se ficção, ou mesmo livros de historiadores ou jornalistas, por insegurança, porque o absurdo da vida é insuportável para a vastidão dos desvalidos quepovoa a Terra.

João Ubaldo Ribeiro
Diário do Farol. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.

escusando-me − desculpando-me
truísmo − verdade trivial, lugar comum
falaciosa − enganosa, ilusória

1. O título do texto soa contraditório, se a verossimilhança for tomada como uma semelhança com o mundo real, com aquilo que se conhece e se compreende.
Essa contradição se desfaz porque, na interpretação do autor, a ficção organiza elementos da vida, enquanto a realidade é considerada como:

(A) linear
(B) absurda
(C) estúpida
(D) falaciosa

Comentário da questão 1
O uso da expressão “o absurdo da vida” mostra que o narrador julga a realidade sem sentido. Ele justifica assim a necessidade de ler ficção, sempre mais lógica e arrumada do que a vida, como forma de suportar a realidade.
Objetivo: Identificar comparação estabelecida pelo autor na caracterização da realidade e da ficção.
Percentual de acertos: 40,39%
Nível de dificuldade: Médio (acima de 30% e igual ou abaixo de 70%)

2. Para justificar a repetição de algo já conhecido, o autor se baseia na relação que mantém com os leitores. Com base no texto, é possível perceber que essa relação se caracteriza genericamente pela:

(A) insegurança do autor
(B) imparcialidade do autor
(C) intolerância dos leitores
(D) inferioridade dos leitores

Comentário da questão 2
O narrador da história de João Ubaldo Ribeiro inclui o leitor entre a maioria das pessoas que não sabe ler, assinalando assim a inferioridade dos leitores em relação a ele mesmo. Observe este trecho: “até porque a maior parte das pessoas não sabe ler e é no fundo muito ignorante, rol no qual incluo arbitrariamente você”.
Objetivo: Reconhecer característica específica da interlocução do enunciador do texto com os leitores.
Percentual de acertos: 66,67%
Nível de dificuldade: Médio (acima de 30% e igual ou abaixo de 70%)

3. os truísmos são parte inseparável da boa retórica narrativa, até porque a maior parte das pessoas não sabe ler 
O narrador justifica a necessidade de truísmos pela dificuldade de leitura da maior parte das pessoas. Encontra-se implícita no argumento a noção de que o leitor iniciante lê melhor se:

(A) estuda autores clássicos
(B) conhece técnicas literárias
(C) identifica ideias conhecidas
(D) procura textos recomendados

Comentário da questão 3
“Truísmo”, como mostra o glossário do texto, é uma verdade trivial, um lugar comum. Os truísmos, como as frases feitas e os clichês, podem ser mais facilmente reconhecidos e compreendidos pelo leitor iniciante. Dito de outra forma, a identificação de ideias conhecidas faria este leitor ler melhor.
Objetivo: Identificar relação de causalidade estabelecida no texto.
Percentual de acertos: 57,21%
Nível de dificuldade: Médio (acima de 30% e igual ou abaixo de 70%)
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