Poesia africana - Interpretação - Exercícios com respostas


O mar na poesia africana de língua portuguesa 

O tema do mar é recorrente na poesia africana de língua portuguesa. O mar frequentemente é referido como cenário das conquistas marítimas, que impuseram sofrimento e silenciamento aos africanos, mas também aparece com carga semântica positiva, fazendo alusão às independências políticas e a um tempo futuro carregado de esperança. É o que se observa no pequeno poema do moçambicano Mia Couto.  

País 
Terra perfumada 
De vitória 
Barco recém-largado 
No mar da esperança. 

COUTO, Mia. País. In: SAÚTE, N.; MENDONÇA, F. Antologia da nova poesia moçambicana. Maputo: Aemo, 1993. p. 309. 

1. Leia as informações sobre Cabo Verde que estão no texto abaixo e também o poema "Prelúdio", escrito pelo escritor cabo-verdiano Jorge Barbosa. Em seguida, responda às questões propostas. 

Texto 1 

O arquipélago de Cabo Verde 
Até a chegada do colonizador português, em 1460, as dez ilhas e os cinco ilhéus que atualmente constituem o arquipélago de Cabo Verde eram desabitados. Inicialmente, o árido território, de clima predominantemente seco, foi povoado pelos portugueses e por escravos da Guiné. Com o passar do tempo, a localização privilegiada das ilhas, que permitia seu uso como entreposto comercial, fez com que o número de habitantes aumentasse significativamente. 
Hoje, a população residente em Cabo Verde é de cerca de 450 mil pessoas. Porém, as difíceis condições econômicas do país fazem com que a imigração seja muito grande e, curiosamente, o número de cabo-verdíanos que residem no exterior (principalmente na Europa e nos EUA) é bem maior do que o número de habitantes das próprias ilhas. 
Depois da conquista da independência, em 1975, o governo de Cabo Verde tem buscado desenvolvimento social e estabilidade econômica. Recentemente, o turismo tem se destacado como importante fonte de renda para o país. 
A capital de Cabo Verde chama-se Cidade da Praia e localiza-se na Ilha de Santiago. As línguas faladas no país são o português (língua oficial) e o crioulo cabo-verdiano, criado da mistura do português europeu com línguas africanas. 

Texto elaborado para fins didático.

Texto 2

Prelúdio 
Quando o descobridor chegou à primeira ilha 
Nem homens nus 
Nem mulheres nuas 
Espreitando 
Inocentes e medrosos 
Detrás da vegetação. 

Nem setas venenosas vindas no ar 
Nem gritos de alarme e de guerra 
Ecoando pelos montes. 
Havia somente 
As aves de rapina 
de garras afiadas 
As aves marítimas 
de voo largo 
As aves canoras 
assobiando inéditas melodias. 

E a vegetação 
Cujas sementes vieram presas 
Nas asas dos pássaros 
Ao serem arrastadas para cá 
Pela fúria dos temporais. 

Quando o descobridor chegou 
E saltou da proa do escaler varado na praia 
Enterrando 
O pé direito na areia molhada 

E se persignou 
Receoso ainda e surpreso 
Pensando n'El-Rei 

Nessa hora então 
Nessa hora inicial 
Começou a cumprir-se 
Este destino ainda de 
todos nós. 

BARBOSA, Jorge. Prelúdio. In: BARBEITOS, A.; DASKALOS, M. A. Poesia africana de língua portuguesa: antologia. Rio de Janeiro: Lacerda, 2003. p. 128-129. 

** se persignou: benzeu-se; fez com o polegar da mão direita três cruzes, uma na testa, outra na boca e outra no peito. 

a) Considerando as informações sobre a ocupação de Cabo Verde, explique o sentido dos versos que compõem as duas primeiras estrofes do poema. 


b) Segundo o poema, o que o "descobridor" encontrou quando aportou na primeira ilha? 

c) Tendo em vista o contexto histórico da colonização portuguesa, explique por que, segundo o poema, o "descobridor" teria se persignado e pensado no Rei ao pisar na terra desconhecida. 

d) Qual seria o "destino" evocado, no poema, pelo eu lírico? 

e) A quem se refere o "todos nós" que finaliza o poema?

f) Sabendo que "prelúdio" significa "sinal ou indício do que irá acontecer, prenúncio", explique o título do poema.

RESPOSTAS

a) Segundo o poema, o "descobridor", ao chegar à primeira ilha, não encontrou nenhum habitante (homens e mulheres nus, espreitando inocentes e medrosos) e, por isso mesmo, nenhum sinal de resistência à invasão (setas venenosas e gritos de alarme e de guerra). 

b) Ele encontrou apenas aves (de rapina, marítimas e canoras) e vegetação, cujas sementes teriam sido trazidas nas asas das aves arrastadas pelos temporais.

c) As viagens marítimas portuguesas estiveram ligadas ao aumento do poder Estado e também à expansão do catolicismo. Nesse sentido, a atitude do "descobridor" afirma a sua submissão ao poder religioso (Igreja) e ao poder político (rei de Portugal)

d) Seria o destino de povo colonizado, dominado pelo governo português durante quase cinco séculos e, depois de 1975, livre do poder colonial.

e) Todos os cabo-verdianos e, por extensão, todos os povos colonizados por Portugal.

f) O poema é intitulado "Prelúdio" porque descreve o momento inicial da chegada dos portugueses em Cabo Verde, ou seja, o momento que antecede ou anuncia a colonização naquele país. 



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