Poema Gonçalves Dias "Consolação nas lágrimas" exercícios (interpretação)


Como é belo à meia noite
O azul do céu transparente,
Quando a esfera d’alva lua
Vagueia mui docemente,
Quando a terra não ruidosa
Toda se cala dormente,
Quando o mar tranqüilo e brando
Na areia chora fremente!

Como é belo este silêncio
Da terra todo harmonia,
Que aos céus a mente arrebata
Cheia de meiga poesia!
Como é bela a luz que brilha
Do mar na viva ardentia!
Este pranto como é doce,
Que entorna a melancolia!

Esta aragem como é branda
Que enruga a face do mar,
Que na terra passa e morre
Sem nas folhas sussurrar!
Os sons d’aéreo instrumento
Quisera agora escutar,
Quisera mágoas pungentes
Neste silêncio olvidar!

O azul do céu, nem da lua
A doce luz refletida,
Nem o mar beijando a praia,
Nem a terra adormecida,
Nem meigos sons, nem perfumes,
Nem a brisa mal sentida,
Nem quanto agrada e deleita,
Nem quanto embeleza a vida;

Nada é melhor que este pranto
Em silêncio gotejado,
Meigo e doce, e pouco e pouco
Do coração despegado;
Não soro de fel, mas santo
Frescor em peito chagado;
Não espremido entre dores,
Mas quase em prazer coado!

Gonçalves Dias

GLOSSÁRIO
aragem: brisa, vento suave e fresco
ardentia: luminescência observada no mar, ocasionada pela presença de microorganismos que emitem luz
chagado: angustiado
despegado: desafeiçoado, desapegado
fremente: trêmulo, vibrante
olvidar: esquecer
pungente: que provoca dor aguda, lancinante



INTERPRETAÇÃO DO POEMA 

1. Os poetas românticos, sentindo-se oprimidos pela civilização, voltavam-se para a natureza e, além de retratá-la subjetivamente, buscavam interagir com ela. Releia as três primeiras estrofes do poema. 

a) De acordo com os seis primeiros versos de cada uma dessas estrofes, quais são as impressões do eu lírico a respeito da natureza que o cerca? Justifique sua resposta com elementos do texto. 
b) Nos dois últimos versos de cada uma dessas estrofes, como o eu lírico relaciona os elementos da natureza com seu estado de alma? Justifique sua resposta com elementos do texto. 
c) Ao descrever a natureza, o eu lírico emprega de modo recorrente a prosopopeia. Identifique uma situação de emprego dessa figura de linguagem na primeira estrofe e explique o efeito de sentido que ela produz no texto. 

2. Na terceira e na quarta estrofes, são exploradas com mais intensidade as impressões sensoriais do eu lírico diante da natureza. 

a) Na descrição da aragem, na terceira estrofe, há o emprego da aliteração (repetição de um mesmo fonema consonantal ou de fonemas consonantais de som aproximado). Que efeito de sentido o emprego da aliteração provoca nessa estrofe? 
b) Na quarta estrofe, o eu lírico retrata a interação com vários elementos da natureza. Dos cinco sentidos, quais o eu lírico utiliza diante desse cenário natural? Justifique sua resposta com elementos do texto 

3. Na última estrofe, o eu lírico retrata seu mundo interior. 

a) De acordo com essa estrofe, como o eu lírico se sente? Justifique sua resposta com elementos do texto.  
b) Para o eu lírico, o pranto é uma manifestação de sofrimento? Justifique sua resposta com elementos do texto 
c) No estado emocional em que se encontra, o eu lírico é confortado pela natureza? Justifique sua resposta com elementos do texto.


GABARITO

1.
a) Para o eu lírico, a natureza é bela, tranquila e harmônica, pois o céu noturno é "belo" e "transparente", a lua clara "vagueia mui docemente", a terra está em silêncio, o mar é iluminado pela "viva ardentia" e a aragem é "branda".
b) Na primeira estrofe, o mar "chora fremente" na areia; na segunda estrofe, o eu lírico também chora ("Este pranto como é doce"); na terceira estrofe, ele expressa o desejo de esquecer suas "mágoas pungentes" no silêncio da natureza.
c) "a esfera d'alva lua / Vagueia"; "a terra... se cala dormente"; "o mar tranquilo e brando... chora fremente". O emprego da prosopopeia, além de destacar a presença da natureza no poema, expressa a subjetividade do eu lírico e sua interação com os elementos naturais.

2.
a) A repetição dos fonemas /R/,/r/ e principalmente /s/ sugere o som da aragem e, assim, reforça as impressões sensoriais produzidas no eu lírico por esse elemento da natureza.
b) A visão ("A doce luz refletida"), a audição ("Nem meigos sons"), o olfato ("nem perfumes) e o tato ("Nem a brisa mal sentida").

3. 
a) O eu lírico se sente tomado pela melancolia, pela agústia de um coração ferido ("peito chagado", "coração despegado") e, por isso, chora.
b) Não. Para ele o pranto tem relação com prazer: "Não soro de fel, mas santo / Frescor...; "Não espremido entre dores, / Mas quase em prazer coado!".
c) Não. Apesar de a natureza agradar aos sentidos e embelezar a vida do eu lírico, a consolação dele são as próprias lágrimas ("Nada é melhor que este pranto"). 

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