O turista aprendiz "Mário de Andrade" Interpretação com gabarito (9ºano)


O excerto a seguir foi retirado da obra O turista aprendiz, de Mário de Andrade, em que ele registra, em forma de diário, impressões e informações coletadas durante viagens pelo Brasil (em 1927 e 1928), cujo objetivo havia sido observar aspectos da cultura popular que, até então, haviam sido mais ou menos ignorados nos grandes centros urbanos do país. Neste trecho, o autor registra uma história narrada a ele por um sertanejo. Leia-o com atenção para responder às questões.

**Gabarito no final**

10 [de dezembro]

[...]
Melodias do Boi – Nosso padim Pade Ciço recebeu de presente um bezerro zebu, verdadeira raridade então em Juazeiro. O nosso padrinho gostava muito do bezerro e tratava ele com muito carinho. Estava batendo tempo de seca, nosso padrinho mandou chamar o homem que destacara pra dar comida pro bezerro e falou: – Olhe, do lado de cá o capim é mais novo e está mais úmido. Você venha cortando o capim lá onde está mais seco pra cá, porque assim o capim dura mais tempo. O homem falou que sim porém quando teve que dar comida pro bezerro ficou com preguiça de ir lá tão longe, hesitou porque desobedecer nosso Padrinho era pecado feio, hesitou muito, afinal a preguiça venceu, cortou o capim mais novo perto e foi dar ele pro bezerro. Foi mas atarantado, com a consciência ardendo por causa do ato pecaminoso. Mas quando botou o capim na frente do bezerro, o zebuzinho abanou as orelhas caídas, dum lado pra outro, dizendo que não, aquilo era capim do pecado, não comia não. Ah! Isso o homem caiu de joelhos, com grandes lamentos, juntou gente e o matuto se penitenciava berrado do ato feio. O sucedido se espalhou logo e toda gente principiou comentando aquele bezerro extraordinário. Não durou um mês e todos perceberam que o zebuzinho era um boi sagrado. Se formou um verdadeiro culto, o bezerro tinha honras de santo, um ídolo verdadeiro, adorado até muito longe de Juazeiro. Toda a gente queria possuir uma relíquia do boi, raspa da unha dele, coisas assim. O mijo dele, em vidros parcimoniosos, viajava aquele sertão largo, e curava feridas, curava doenças, fazia milagres sem carecer de nosso padim Pade Ciço. Mas o homem que nosso Padrinho faria deputado, contam as más línguas, que percebeu o perigo. O boi já tinha mais prestígio que nosso Padrinho. O fato é que chegou, fez um estardalhaço e mandou matar o boi. A carne dele ainda foi picada em milhares de pedacinhos, que toda a gente quis guardar santificando o lar. Mas o caso é que o boi morreu. Pouco a pouco a lembrança dele foi se apagando nas memórias, o culto acabou.

ANDRADE, Mário de. O turista aprendiz. Brasília: Iphan, 2015.

Questão 1
No início do trecho, o narrador da história menciona um personagem importante, o “padim Pade” Cícero. 
Essa expressão reproduz, na escrita, a maneira como o narrador pronuncia as palavras. Reescreva essas palavras de acordo com as normas ortográficas.
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Questão 2
Acerca do emprego do pronome isso em “Isso o homem caiu de joelhos”, assinale a alternativa correta.
a) No trecho, o pronome isso tem o sentido de então e não deveria ter sido empregado, configurando um erro gramatical.
b) O uso do pronome isso não configura um erro gramatical, na medida em que é possível compreendê-lo, mas provoca uma inadequação da linguagem, já que a publicação em livro exige o emprego da 
norma-padrão.
c) O pronome isso, no trecho, tem o sentido de então e seu emprego é adequado, uma vez que o trecho reproduz a fala informal de um sertanejo.
d) O uso do pronome isso é adequado, uma vez que se pode observá-lo em variantes urbanas de prestígio, exigidas em situações de formalidade, como a publicação de um livro.
Questão 3
Explique com suas palavras o que levou “toda gente” a considerar o bezerro sagrado.
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Questão 4
Releia o seguinte período:

O mijo dele, em vidros parcimoniosos, viajava aquele sertão largo, e curava feridas, curava doenças, fazia milagres sem carecer de nosso padim Pade Ciço.

A partir desse trecho, é possível inferir por que o “padim Pade Ciço” era um homem tão querido pela população. Identifique esse motivo e justifique sua afirmação.
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Questão 5
Sobre a morte do boi, assinale a alternativa que contém uma afirmação correta.

a) Dizia-se que o boi foi morto a mando de um homem que o enxergou como uma ameaça a sua candidatura.
b) A motivação da morte do boi foi que ele chegou a superar, em prestígio, o “padim Pade Ciço”, que se ressentiu da perda de sua popularidade.
c) A conjunção mas em “Mas o caso é que o boi morreu”, por indicar oposição, sugere que guardar pedaços da carne do boi não surtiu o efeito esperado.
d) Pode-se dizer que a determinação de matar o boi surtiu o efeito esperado, uma vez que o culto acabou, permitindo a eleição do deputado.