Atividade carta aberta 9ºano com gabarito - Habilidades EF89LP19, EF69LP27

Carta aberta aos homens de vida pública e “boa vontade”
Por Cristina Veloso

Lembro-me, quando ainda adolescente, de que era a Faculdade de Veterinária da UFMG o centro de apoio para animais de proprietários carentes que não podiam pagar consultas e tratamentos em clínicas particulares.
O Hospital Veterinário da UFMG prestava um serviço público e era centro de referência nacional para tratamentos de animais domésticos de pequeno ou grande porte, bem como dos silvestres.
Hoje, se uma pessoa carente financeiramente passar pelo infortúnio de ter um animal de estimação adoentado ou acidentado, e, da mesma forma, aqueles que movidos pela compaixão desejarem socorrer um animal de rua doente, atropelado, ou mesmo qualquer animal silvestre nessa situação, não terão a quem recorrer se não tiverem como pagar.
O poder público apenas disponibiliza o serviço de castração gratuito, assim mesmo só em alguns municípios.
Em se tratando de saúde animal a situação é de total abandono, salvo alguns raríssimos e heroicos veterinários particulares, cujas clínicas prestam socorro, nas situações acima citadas.
Aproveitando o espaço de que dispomos neste jornal, e que dividimos, privilegiadamente, com homens públicos de efetivo empenho ao bem comum, a Promutuca vem fazer um apelo suprapartidário à consciência e à sensibilidade pessoal dos vereadores e deputados que partilham conosco da vontade de contribuir para uma sociedade mais justa: necessitamos de um projeto de lei que obrigue as Faculdades de Veterinária públicas e privadas, a exemplo do que ocorre nas Faculdades de Medicina e de Direito em suas respectivas atribuições, a prestarem serviços gratuitos aos animais abandonados ou cujos proprietários não disponham de recursos para custear seu tratamento.
É com grande espanto que constatamos os cursos de Veterinária se distanciarem de seu verdadeiro objetivo: a formação de profissionais dedicados à saúde e ao bem-estar animal.
Animais saudáveis são utilizados em experimentos com fins científicos (pesquisa) ou didáticos: a dissecação, ação de seccionar partes do corpo ou órgãos de animais mortos para estudar sua anatomia, e a vivissecção, que é a realização de intervenções invasivas em animais vivos, anestesiados ou não: práticas obsoletas que nos remetem a René Descartes e sua teoria do animal-machine. No século XVII, o físico inglês Isaac Newton concebeu o universo como um imenso mecanismo de relógio, possível de ser compreendido pelo estudo de suas partes. Na mesma época, Descartes adaptou esse mecanicismo para a medicina. Para ele, os corpos de animais eram apenas máquinas, e sentimentos como prazer, dor e sofrimento moravam na alma, que só os homens possuíam. Se animais não tinham alma, a dedução lógica era a de que não sentiam dor. Os ganidos de cães seccionados vivos e conscientes, na Escola de Port-Royal, por ele e seus seguidores, eram interpretados como o simples ranger de uma máquina. Era o auge da teoria do animal-machine (animal-máquina).
Na Europa e nos Estados Unidos, muitas faculdades de medicina não mais utilizam animais, nem mesmo nas matérias práticas como a técnica cirúrgica e cirurgias experimentais, oferecendo substitutivos em todos os setores. Nos EUA, mais de 100 escolas de medicina (quase 70%), incluindo Harvard, não utilizam animais. Na Inglaterra e na Alemanha, a utilização de animais na educação médica foi abolida, sendo que na Grã-Bretanha (Inglaterra, País de Gales, Escócia e Irlanda) é contra a lei estudantes de medicina, humana ou animal, praticarem cirurgia em animais com fins meramente “didáticos”.

No Brasil, a Faculdade de Medicina Veterinária da USP desde 2000 não utiliza animais vivos em aulas de técnica cirúrgica. Utiliza cadáveres, especialmente preparados, de animais que tiveram morte natural em clínicas e hospitais veterinários. A preparação é feita a partir de substâncias que preservam a consistência do tecido como a de um animal vivo. 
Não obstante a efetiva evolução moral e científica abolindo a utilização de animais na educação, por meios alternativos mais éticos e eficientes, estudantes realizam a tarefa por imposição. Por que não aprender cuidando, salvando vidas animais?
É que a clínica de animais tornou-se um lucrativo “negócio” para as Faculdades de Veterinária, distanciando-as de seu objetivo fim: o pedagógico, cuja excelência vai além do científico, abrange a compaixão e essa não se ensina, pratica-se. 
Nobres deputados, vereadores, alunos de Veterinária, de Biologia, professores, proprietários de animais e homens de sensibilidade: precisamos que cada escola de Veterinária abra a sua porta, por pelo menos duas vezes na semana, uma para clínica, outra para cirurgia de animais. 
As Faculdades de Medicina já há muito assim o fazem, as de Direito também. Mais uma vez vemos nessa situação a concreta e manifesta desconsideração com a Vida Animal. 
Tenho certeza de que muitos leitores endossam nosso pedido. Já sopra um vento de mudanças com relação ao alargamento ético e jurídico dos direitos animais na modernidade. Feliz do homem que sabe ler o seu tempo. E utiliza-se da boa ação em “tempo oportuno”.

Cristina Brugnara Veloso é advogada e moradora em um dos condomínios integrantes da ONG Promutuca.

Cristina Brugnara Veloso. Carta aberta aos homens de vida pública e “boa vontade”. Jornal do Belvedere e Condomínios de Nova Lima, Belo Horizonte, 10 jan. 2012.

INTERPRETAÇÃO DO TEXTO
Sugerimos, após a leitura silenciosa, a formação de quartetos para responder oralmente a quem se dirige a carta, com que finalidade foi escrita, qual tese defende e quais argumentos são usados. Não é necessário corrigir; a atividade tem como objetivo oferecer aos alunos a oportunidade de checar sua compreensão antes do início das atividades.

1. O texto da carta que você acabou de ler pode ser dividido em cinco partes, indicadas a seguir. Identifique os parágrafos que se relacionam a essas partes.

a) Contextualização do fato social que motiva a carta. 1 a 5 

b) Apresentação da solicitação. 6

c) Justificação da solicitação. 7 a 12

d) Retomada da solicitação e detalhamento de uma proposta. 13

e) Conclusão do raciocínio. 14 e 15

2. Reflita sobre a maneira como a produtora do texto se apresenta.

a) Ela fala apenas em nome dela? Explique sua resposta.
Não. Ela fala em nome da ONG Promutuca.

b) Junto da assinatura, há uma identificação social. Qual é a relevância disso para o leitor?
O fato de Cristina Brugnara Veloso ser advogada dá credibilidade a algumas informações apresentadas  elo texto, como a de que há um “alargamento ético e jurídico dos direitos animais na modernidade”;  além disso, a referência ao lugar onde ela mora explica sua associação à ONG.

c) No início da carta, a advogada faz referência a uma lembrança. Essa referência torna a carta pessoal? Justifique sua resposta.
Não. A lembrança é apenas uma estratégia para opor o atendimento eficiente dos animais no passado à  negligência do presente. A carta não foi escrita com base em experiências pessoais.

3. Observe, agora, os destinatários da carta.

a) Nesse contexto, “homem” é uma referência a um ser do sexo masculino? Explique sua resposta.
Não. É uma generalização que se refere também a mulheres que atuam na esfera pública.

b) Já no final da carta, a produtora usa vocativos para designar seus destinatários. Transcreva-os.
“Nobres deputados, vereadores, alunos de Veterinária, de Biologia, professores, proprietários de animais e homens de sensibilidade”.

c) Qual é o efeito do uso de vocativos, nesse ponto da carta, para referir-se aos destinatários?
A carta parece mais incisiva com o uso de vocativos, já que cita os que estão, de alguma forma, relacionados ao problema abordado.

d) A produtora da carta emprega a expressão tenho certeza para indicar a crença de que os leitores concordam com a proposta apresentada. Qual é a função do uso dessa expressão em relação ao destinatário?
A expressão tenho certeza enfatiza a opinião e amplia a pressão sobre os destinatários.

4. Uma carta aberta deve dirigir-se aos que efetivamente são responsáveis por determinado setor da vida social.

a) Qual é a reivindicação expressa no sexto parágrafo e a quem ela é feita?
A carta reivindica a criação de um projeto de lei que obrigue as faculdades de veterinária públicas e privadas a prestar serviços gratuitos aos animais abandonados ou de proprietários carentes. A vereadores e deputados.

b) A produtora do texto está correta em dirigir seu pedido a esses interlocutores especificamente? Justifique sua resposta.
A autora acerta ao fazer a reivindicação a profissionais cujas funções permitem a proposta de leis.

c) A produtora afirma que seu apelo é suprapartidário. Identifique o radical dessa palavra e explique o sentido do prefixo.
O radical é partid e o prefixo significa “acima de”. Suprapartidário tem o sentido de “que está acima dos partidos”, “pode reunir vários partidos, sem ser dirigido por um deles”

5. Como você pôde perceber, na carta aberta foi empregada a linguagem formal. O que justifica a escolha desse nível de linguagem?
Como a carta aberta representa uma situação de interação entre interlocutores sem intimidade para tratar de um assunto sério, de interesse social, é adequado um nível de linguagem formal.

6. Analise a escolha lexical (de vocabulário) da carta.

a) Para evitar a repetição de uma pessoa, adoentado e acidentado, quais palavras foram usadas no parágrafo 3?
As palavras aqueles, doente e atropelado, respectivamente.

b) Quais palavras foram empregadas no parágrafo 4 para indicar que o serviço público oferecido a animais é insuficiente?
As palavras apenas e .

c) Explique como, no parágrafo 5, os adjetivos que acompanham a expressão veterinários particulares tornam-se argumentos em defesa da causa da advogada.
As palavras raríssimos e heroicos sugerem que os profissionais que se dedicam a ajudar os animais necessitados são exceções, o que confirma a ideia de que é preciso conseguir ajuda das faculdades.

Habilidades:
(EF69LP27) Analisar a forma composicional de textos pertencentes a gêneros normativos/jurídicos e a gêneros da esfera política, tais como propostas, programas políticos (posicionamento quanto a diferentes ações a serem propostas, objetivos, ações previstas etc.), propaganda política (propostas e sua sustentação, posicionamento quanto a temas em discussão) e textos reivindicatórios: cartas de reclamação, petição (proposta, suas justificativas e ações a serem adotadas) e suas marcas linguísticas, de forma a incrementar a compreensão de textos pertencentes a esses gêneros e a possibilitar a produção de textos mais adequados e/ou fundamentados quando isso for requerido.

(EF89LP19) Analisar, a partir do contexto de produção, a forma de organização das cartas abertas, abaixo-assinados e petições on-line (identificação dos signatários, explicitação da reivindicação feita, acompanhada ou não de uma breve apresentação da problemática e/ou de justificativas que visam sustentar a reivindicação) e a proposição, discussão e aprovação de propostas políticas ou de soluções para problemas de interesse público, apresentadas ou lidas nos canais digitais de participação, identificando suas marcas linguísticas, como forma de possibilitar a escrita ou subscrição consciente de abaixo-assinados e textos dessa natureza e poder se posicionar de forma crítica e fundamentada frente às propostas.