Augusto dos Anjos - Interpretação com gabarito (Obra Eu) Pré-modernismo

Augusto dos Anjos (1884-1914) nasceu no Engenho Pau d'Arco, no município de Sapé, Paraíba. Formou-se em Direito, mas, em vez de atuar como advogado, foi professor e deu aulas de literatura em diferentes instituições de ensino no Rio de Janeiro. Morreu de tuberculose, aos 30 anos, deixando uma única obra, Eu, que ainda hoje impacta e seduz leitores das novas gerações. 

Em 1912, ocorreu a primeira publicação de Eu, de Augusto dos Anjos, que já teve mais de cem edições e é, provavelmente, a obra de poesia mais lida em nosso país.

Tal sucesso tem várias explicações, entre elas a originalidade chocante da poesia do autor, que trilhou um caminho único em nossa literatura, fundindo elementos simbolistas a elementos materialistas e científicos.

Por um lado, o poeta herdou do Simbolismo uma visão cósmica e uma angústia moral, além de ter adotado, por influência do filósofo Schopenhauer, um pessimismo exacerbado. Por outro, incorporou uma visão materialista e científica da vida e do mundo, com claras influências do biólogo naturalista Ernst Haeckel (1834-1919) e do filósofo Herbert Spencer (1788-1860). Paradoxalmente, o eu lírico de seus poemas busca o infinito na matéria, com a perspectiva pessimista de que tudo caminha para a morte, para o mal e para o nada. Não há nessa poesia lugar para a esperança, uma vez que tudo é matéria, e a matéria caminha para a podridão absoluta.

A linguagem empregada pelo autor também é surpreendente, considerando-se a linguagem elevada que até então era utilizada na poesia. Termos científicos se misturam a um vocabulário rebuscado, dando origem a uma linguagem eloquente, expressiva e muitas vezes chocante. As formas poéticas, entretanto, ainda são as convencionais empregadas no Simbolismo, como o soneto e o verso decassílabo ou o alexandrino.

Leia, a seguir, dois textos que integram a obra Eu.

Texto 1
O deus verme

Fator universal do transformismo.
Filho da teleológica matéria,
Na superabundância ou na miséria,
Verme − é o seu nome obscuro de batismo.
Jamais emprega o acérrimo exorcismo
Em sua diária ocupação funérea,
E vive em contubérnio com a bactéria,
Livre das roupas do antropomorfismo.

Almoça a podridão das drupas agras,
Janta hidrópicos, rói vísceras magras
E dos defuntos novos incha a mão...
Ah! Para ele é que a carne podre fica,
E no inventário da matéria rica
Cabe aos seus filhos a maior porção!

Disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1772

Texto 2
Idealismo

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
De amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
É o amor do sibarita e da hetaira,
De Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
O mundo fique imaterializado
− Alavanca desviada do seu futuro −

E haja só amizade verdadeira
Duma caveira para outra caveira,
Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

(Idem.)

GLOSSÁRIO

acérrimo: superlativo de acre, ou seja, muito azedo.

agro: o que tem sabor ácido, azedo.

antropomorfismo: atribuição de características humanas a algo que não é humano, como por exemplo, o clima.

contubérnio: familiaridade, intimidade.

drupa: fruta carnosa com semente em forma de caroço, como a azeitona e a manga.

hetaira: na Grécia antiga, uma prostituta de luxo.

hidrópico: relativo à hidropisia, ou seja, derramamento de líquido seroso em tecidos ou em cavidade do corpo.

idealismo: concepção de que a realidade consiste essencialmente de algo não material; o oposto de materialismo.

mister: necessário.

Messalina: imperatriz romana, terceira esposa do imperador Cláudio, conhecida como insaciável sexualmente; mulher de má reputação.

teleológico: relativo à teleologia, isto é, doutrina que explica algo com base em sua finalidade.

Sardanapalo: segundo a lenda, o último rei da Assíria, tido como devasso, efeminado e glutão.

sibarita: aquele que aprecia os prazeres físicos e a preguiça, como os habitantes de Síbaris, cidade da Grécia antiga.

QUESTÕES DE INTERPRETAÇÃO

1. A respeito do texto 1, responda:
a)
Qual é o tema central do poema?
b) Explique o título do poema, levando em conta o papel do verme no universo.

2.  Indiretamente, o texto 1 faz referência à morte de seres humanos e de outros seres.
a)
Que verso do poema demonstra o desprezo do eu lírico pelas crenças humanas?
b) Há, no texto, alguma referência a espiritualidade, sentimentos, sonhos?
c) Conclua: Que visão o eu lírico tem da vida e do mundo?

3. Em relação ao texto 2, responda:
a)
Qual é o tema central do poema? 
b) Qual é o pensamento do eu lírico sobre esse tema? Justifique sua resposta com um verso do poema.
c) Na visão do eu lírico, o que seria necessário para que esse sentimento, em sua forma mais sublime, viesse a existir? Justifique sua resposta com um verso do poema.
d) Leia, no glossário, o significado da palavra idealismo e responda: Que relação há entre o título e as ideias presentes no poema?

4.  Compare os dois poemas quanto à linguagem, à forma e ao conteúdo.
a)
Tendo em vista que, no passado, a poesia privilegiava um vocabulário elevado, considerado de bom gosto, responda: Que palavras ou expressões desses textos fogem a essa tradição? De que esfera do conhecimento são essas palavras?
b) O que aproxima os dois poemas quanto à forma?
c) Que efeito resulta da mistura da forma clássica com temas e termos pouco convencionais?

GABARITO

1.
a)
É a decomposição da matéria, resultante da ação dos vermes.
b) O verme é visto como um deus porque sobrevive a todos os seres e os devora quando morrem, transformando-os em um novo tipo de matéria. Além disso, está em todo lugar e não faz distinção entre seres ricos e pobres, humanos e não humanos.

2.
a)
“Livre das roupas do antropomorfismo” ou ainda “Jamais emprega o acérrimo exorcismo”.
b) Não. 
c)  Ele tem a visão de que tudo na vida e no mundo se resume à matéria, que é perecível e caminha para
a destruição, para o nada, numa atitude pessimista.

3.
a)
É o amor.
b)  Ele não acredita no amor e o considera uma ilusão, uma mentira, conforme revela o verso “O amor da Humanidade é uma mentira”.
c) Seria necessário que a matéria deixasse de existir, conforme revelam o verso “O mundo fique imaterializado” e os dois últimos.
d) O título sugere que o amor é uma invenção do idealismo. Com base em um ponto de vista oposto, isto é, materialista, o eu lírico nega tudo o que não seja material.

4.
a)
Palavras como teleológica, bactéria, antropomorfismo, hidrópicos, vísceras, que pertencem à esfera filosófica e científica (biologia, microbiologia).
b) Os dois poemas são sonetos e os versos são decassílabos.
Observação: A abordagem e a linguagem adotadas pelo autor são uma importante inovação na tradição do soneto em língua portuguesa.
c) Dessa mistura resulta um estranhamento, já que não é comum o soneto abordar temas como esses, e utilizar um vocabulário considerado não poético.