Interpretação de poemas Gregório de Matos com gabarito (Barroco)

Você vai ler, a seguir, três poemas de Gregório de Matos. O primeiro é representativo da lírica amorosa; o segundo, da lírica religiosa; e o último, da poesia satírica do autor.

Texto 1
A MARIA DOS POVOS, SUA FUTURA ESPOSA

Discreta, e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora,
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca o Sol, e o dia:

Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:

Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda ligeireza,
E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh, não aguardes, que a madura idade,
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

(In: José Miguel Wisnik. Poemas escolhidos – Gregório de Matos. São Paulo: Cultrix. p. 319.)

Texto 2
NO DIA DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Que és terra, homem, e em terra hás de tornar-te,
Te lembra hoje Deus por sua igreja;
De pó te faz espelho, em que se veja
A vil matéria, de que quis formar-te.

Lembra-te Deus, que és pó para humilhar-te,
E como o teu baixel sempre fraqueja
Nos mares da vaidade, onde peleja,
Te põe à vista a terra, onde salvar-te.

Alerta, alerta, pois, que o vento berra.
Se assopra a vaidade e incha o pano,
Na proa a terra tens, amaina e ferra.

Todo o lenho mortal, baixel humano,
Se busca a salvação, tome hoje terra,
Que a terra de hoje é porto soberano.

(Idem, p. 309.)

amainar: sossegar, acalmar, abrandar.
baixel: barco, navio.
ferrar: jogar âncora.
inchar o pano: inflar as velas.
lenho: embarcação.
pelejar: lutar, batalhar.
proa: parte dianteira de uma embarcação.

Texto 3
DESCREVE O QUE ERA NAQUELE TEMPO A CIDADE DA BAHIA

A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um bem frequente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres:
E eis aqui a cidade da Bahia.

(Idem, p. 41.)

esquadrinhar: examinar minuciosamente.
picardia: logro, velhacaria, enganação.
usura: agiotagem, exploração financeira.

QUESTÕES DE INTERPRETAÇÃO

1. No texto 1, a descrição da mulher é feita conforme as convenções poéticas do período barroco.
a)
Na primeira estrofe, identifique e explique as figuras de linguagem utilizadas para retratar a figura feminina.
b) As figuras de linguagem contribuem também para construir a imagem de juventude da mulher. Explique como essa construção é feita.
c) Nos quartetos do soneto, há elementos da cultura greco-romana. Quais são esses elementos? Que efeitos de sentido eles produzem no texto?

2. No primeiro terceto do texto 1, o eu lírico associa a mocidade da mulher à flor.
a)
Explique essa metáfora no contexto desse e do terceto seguinte.
b) De acordo com o eu lírico, o tempo converte a flor “Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada”. Explique essa sucessão de metáforas.
c) A sequência de metáforas constrói outra figura de linguagem. Qual é ela?

3. O poema foi dedicado a Maria dos Povos, futura esposa do poeta. Com base nessa informação e nas informações abaixo sobre “Carpe diem”, responda:
a) No poema, como o tema do carpe diem é abordado?
b) O tema do carpe diem é envolvido em sentimento de culpa? Justifique

Carpe diem
A expressão carpe diem vem do latim e significa “colher (gozar) o dia”. Ela se consagrou em versos do poeta romano Horácio (65 a.C.- 8 a.C.) que aconselham aproveitar o dia, o momento presente, em razão de o tempo ser fugidio, efêmero. Nos versos de Horácio, o carpe diem tem relação com convite amoroso: como a vida corre rápida e em direção à morte, o eu lírico sugere à amada que ambos, ele e ela, usufruam do amor enquanto há tempo. O Barroco retoma a reflexão sobre a efemeridade da vida e o carpe diem, porém, devido ao forte sentimento religioso dominante na época, o desejo de aproveitar o dia aparece, muitas vezes, associado ao sentimento de culpa sua resposta utilizando elementos do texto.

4. Os textos barrocos abordam com frequência os conflitos humanos pela perspectiva dual, antitética, como pecado e perdão ou razão e fé. No poema, que conflitos duais são apresentados?

5. O texto 2 se fundamenta em dois ensinamentos bíblicos: o primeiro, de que homem é pó e ao pó sempre retorna; o segundo, de que tudo na vida é vaidade.
a) 
Quem é o interlocutor do eu lírico no poema?
b)  Segundo o poema, o homem é feito de pó. Levante hipóteses: Considerando-se a primeira estrofe do poema, que princípio moral está presente nessa afirmação? Justifique sua resposta com elementos do texto.
c) Na segunda estrofe, ao abordar os ensinamentos bíblicos, o eu lírico emprega uma imagem para representar a vida humana. Qual é ela?
d) Como o homem sempre fraqueja e se deixa levar pela vaidade, para que ele possa se salvar, o eu lírico lembra que Deus: “Te põe à vista a terra”. Considerando-se os ensinamentos bíblicos, o que a terra representa nessa recomendação? 

Alegoria
A alegoria é uma representação do pensamento em forma figurada, ou seja, empregam-se imagens, figuras, animais, objetos, pessoas para representar uma ideia, uma moral, um pensamento, etc. A fábula, o apólogo e a parábola são exemplos de gêneros textuais que utilizam a alegoria. Na fábula “A cigarra e a formiga”, esses animais representam dois tipos humanos opostos quanto ao comportamento — o preguiçoso e o trabalhador —, e suas ações, na história, constroem uma moral: ambos colhem o que merecem.
A alegoria também está presente na pintura e na escultura. No Barroco, a arte utilizou amplamente a alegoria. Por exemplo, no quadro Mulher com balan•a, de Vermeer, a balança é uma alegoria da ponderação, do equilíbrio. Outro exemplo são os crânios, que aparecem em diversas pinturas, representando a morte.

6. Os dois tercetos do texto 2 constituem uma alegoria contra a vaidade humana.
a)
Quando a vaidade assopra e “incha o pano”, o ser humano deve ter em vista que na “proa” tem a terra; por isso, o eu lírico recomenda: “amaina e ferra”. Considerando o contexto do poema, explique as imagens observadas nos trechos destacados.
b) Conclua: Segundo o eu lírico, de que modo o ser humano pode se livrar dos perigos da vaidade? Justifique sua resposta com elementos do último terceto.

7. A poesia satírica do poeta baiano critica vários aspectos da vida social da cidade de Salvador no século XVII. No texto 3, o eu lírico critica os governantes de uma forma irônica.
a)
Na primeira estrofe, cabana, vinha e cozinha são metonímias. Explique o sentido de tais metonímias, com base no contexto em que aparecem.
b) Explique a ironia presente nessa primeira estrofe.
c) Conclua: Nessa estrofe, qual é a crítica que Gregório de Matos faz à sociedade em que vive?

8. Na segunda estrofe do texto 3, a crítica é direcionada ao “olheiro”. 
a)
De que modo o eu lírico enfatiza as más práticas dessa figura social?
b) Na região onde você vive, como são chamados os “olheiros”?

9. Na terceira estrofe do texto 3, reafirmando a ideologia dominante na época, o poeta critica a ascensão social do mulato. Considerando que, no segundo verso, há uma inversão da estrutura sintática, responda: Qual é a situação dos “homens nobres” diante dos mulatos?

10. No último terceto do texto 3, são feitas outras críticas à cidade da Bahia, ou seja, a Salvador.
a)
Quais são essas críticas?
b) De acordo com as reflexões realizadas ao longo do poema, pode-se dizer que nele está presente o tema do mundo às avessas? Justifique sua resposta.

11. Nos poemas estudados, predomina o estilo cultista ou o estilo conceptista? Justifique sua resposta.

GABARITO

1.
a)
O eu lírico utiliza metáforas para descrever o rosto feminino. A face rosada é associada à Aurora, deusa do amanhecer (“tuas faces a rosada Aurora”), os olhos têm o brilho do Sol, e a boca, vista como o conjunto de lábios e dentes, tem a claridade do dia (“Em teus olhos e boca o Sol, e o dia”).
b) O eu lírico associa o rosto da mulher a elementos diurnos, como o amanhecer, o sol e o dia, que sugerem o brilho e o frescor da juventude.
c) Aurora e Adônis são deuses relacionados à mitologia greco-romana. A presença de Adônis cria sensualidade no poema: ele é associado ao ar fresco e, dessa forma, o deus desarranja os cabelos da jovem (“Te espalha a rica trança voadora”), em uma espécie de breve namoro (“fresco Adônis te namora”).

2.
a)
A mocidade é flor porque partilha com esta determinadas características: beleza, fragilidade e efemeridade.
b) A passagem do tempo deteriora, progressivamente, a beleza e a juventude (“flor”), causando a velhice e, por fim, a morte (“Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada”).
c) A gradação.

3.
a)
Sugerindo um convite amoroso, o eu lírico exorta a mulher desejada a gozar sua juventude e o momento presente (“Oh, não aguardes, que a madura idade”), pois o tempo, rapidamente, “imprime em toda a flor sua pisada”.
b) Não; o eu lírico apresenta o convite amoroso sem demonstrar sentimento de culpa ou remorso (“Goza, goza da flor da mocidade”).

4. Vida e morte, juventude e velhice.

5. 
a) 
O ser humano em geral.
b) O princípio de que o homem é um ser sem importância, pois é feito de “vil matéria”.
c) O baixel, ou seja, o navio, embarcação que navega em meio às dificuldades apresentadas pelo mar.
d) Professor: Abra a discussão com a classe, pois pode haver mais de uma interpretação. Sugestão: A terra representa o fim, a morte, a transformação em pó; assim, para a salvação, é necessário ter consciência de nossa efemeridade e estar convencido de que somos pó, vil matéria, e de que, portanto, deixar-se levar pela vaidade não traz benefício nenhum para o ser humano.

6.
a)
Quando, na vida, o homem se envaidece, ou seja, infla-se com a vaidade (“incha o pano”), ele deve ter em mente que logo à sua frente (na “proa”) está seu fim, sua efemeridade, sua mortalidade (“a terra”); por isso, o eu lírico recomenda que o ser humano retome a consciência de que é pó (“ferra”, isto é, lance âncora).
b) Reconhecendo a precariedade de sua condição, ou seja, reconhecendo sua mortalidade (“tome hoje terra”), pois assim não há como se envaidecer, se considerar tão importante.

7.
a)
Cabana e vinha têm, respectivamente, o sentido de casa e trabalho; cozinha, no contexto do poema, remete às coisas que dizem respeito à própria vida de cada conselheiro.
Professor: Sugerimos comentar com os alunos que cozinha também pode remeter, especificamente, à esposa, que, nesse contexto, é responsável pelas tarefas da casa.
b) A ironia é construída em torno da figura do “grande conselheiro”, que, embora seja incapaz de governar o que diz respeito à sua própria vida (“cozinha”), pode governar a vida dos outros (“governar o mundo inteiro”); logo, para o eu lírico, não se trata de um “grande conselheiro”.
c) A de que o incompetente é quem manda.

8.
a)
O eu lírico detalha as ações do olheiro por meio de uma gradação crescente, ou seja, o olheiro “Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha” a vida alheia.
b) Algumas opções: fofoqueiro, mexeriqueiro, leva e traz.

9. Na ordem direta, temos “os homens nobres trazidos sob os pés”; logo, o eu lírico sugere que homens nobres ficam sob os pés dos mulatos, ou seja, são subjugados pelos “mulatos desavergonhados”, que agem com “toda a picardia”, ou seja, com velhacaria.

10.
a)
A exploração pela cobrança de altos preços nos mercados da cidade e a falta de honestidade no geral, sendo os pobres os únicos honestos.
b) Sim, pois, para o eu lírico, as coisas estão fora do lugar, invertidas: o incompetente é quem manda, o honesto é pobre e os brancos  são subjugados pelos mulatos, situação que contrariava os valores predominantes na época, conforme os quais era natural os brancos subjugarem os mulatos.

11.
Predomina o estilo cultista, pois a linguagem se caracteriza pelo rebuscamento, com inversões sintáticas e o amplo emprego de metáforas, gradação, metonímia, hipérbole, o que demonstra a ornamentação exagerada do estilo. No texto 2, nota-se também uma tendência conceptista, com o uso de alegoria para auxiliar no desenvolvimento do raciocínio.